Sobre férias, estranhamento, diversão e mudanças

Meus passos oscilam entre leves e pesados em um movimento nada sincronico. Carregam saudades antecipadas pela data da volta desde que o momento em que aqui piso. Amanheço reconhecendo e estranhando as coisas, os cheiros, os barulhos, as vozes, a temperatura, o sol que alegra e castiga. Meu corpo se torna mais preguiçoso. Com estranheza percebo a necessidade de usar o carro para quase tudo, incluindo comprar um simples pão. Sinto falta da minha bicicleta e me pergunto como as pessoas conseguem viver dessa maneira. Me esqueço que isto era normal para mim a alguns anos atrás. Ao cozinhar já não reconheço os ingredientes. Cozinho alguma coisa que não sai com o sabor esperado. Falta algo que não consigo identificar. Casca de legumes, isopor da embalagem de carne, garrafas plásticas, qualquer tipo de papel, restos de comida e folhas das árvores espalhadas pelo quintal… Todos tem como destino o mesmo saco de lixo. Quanta estranheza sinto ao ver que isto ainda eh considerado “normal” por quase toda a população do pais. Me lembro daquela moça que conseguiu juntar em um vidrinho todo o lixo que produziu em 2 anos! Quanta coisas simples ainda podemos aprender nesta vida! Vou ao supermercado e me deparo com as mesmas sacolinhas plásticas… Elas não tinham sido proibidas a algum tempo atrás? Vejo meu filho alheio a toda e qualquer diferença cultural e lingüística. Ele toma banho de balde junto com os priminhos no quintal da casa da vovó. Juntos eles correm pela casa, brincam de carrinho e brigam por bobagens. Os pezinhos “gringos” ou brasileiros ficam sujos igualmente. Eles se divertem e para gargalhada de criança não há barreira cultural. Aliás, descubro meu filho muito brasileirinho, bagunceiro e livre de tantas regras suíças. Me vejo como a mãe com mais regras na família e sinto que assimilei muito da cultura onde vivo. Fico feliz que meu filho possa conviver em dois (ou mais) mundos diferentes. Como eh bom ver estas amizades que iniciam. Como queremos e torcemos para que, apesar da distância, essas amizades cresçam e se fortaleçam! Revejo meus irmãos, encontro rugas novas nos mesmos e belos olhares, risadas que são velhas conhecidas minhas e que hoje, ainda riem das mesmas piadas e das mesmas lembranças da infância. Lembramos das mesmas estórias do passado e rimos juntos. Também rimos juntos com as bagunças dos nossos pequenos. Percebo o quanto ainda somos crianças que avançam na bacia de pipoca que minha mãe fez. Também disputamos os pães de queijo. E que vença o mais rápido! Damos muitas risadas disto. Penso no que seria de mim sem meus irmãos. No mínimo não teria o prazer de ser tia de pequenos seres tão lindos e queridos. Teria menos pessoas para dizer e escutar a frase mais tranqüilizadora do mundo: “Estou aqui para o que precisar”, ainda que nem sempre ela seja verdade ou possível. Me espanto com o tamanho das favelas. Elas parecerem maiores a cada ano. Ou será que eu eh que me desacostumei com esta paisagem? Me vejo fazendo a mesma pergunta que o meu marido gringo: “Aquilo ali eh favela ou bairro?”. Achobque minhas referências estão mudando aos poucos. Visito lugares pela primeira vez. Como eh grande este pais!!! Viajo por estradas com caminhões que soltam a fumaça mais preta que já vi. Penso que isso deveria ser proibido… Essas mesmas estradas tem as montanhas e paisagens mais belas que já vi na vida! Ahhh, Minas… (Suspiro profundamente). Escuto músicas que resgatam a minha essência e me fazem viajar no tempo: “cavaleiro marginal banhado em ribeirão, você não quis acreditar mas isso eh tão normal… Lalarala…”. Ando de charrete com meu filho e choro de pena do pônei. Encurto o caminho e explico que o cavalinho estava cansado. Ele entende e também sente pena. E eu descubro que compaixão eh algo que também pode ser ensinado e aprendido. Não me canso de olhar o azul do céu. Acreditem: não há azul mais azul que o céu do Brasil. Conto estrelas a noite e vejo a lua escandalosamente cheia e iluminada. Não me lembro da ultima vez que tive o prazer de ver o céu todo estrelado, todinho para mim! Em Basel isto não eh tão comum. Como pão de queijo e bolo de milho. Mato as saudades do feijão mineiro, do jiló frito, da abóbora com angu. Me delicio com tudo mas já estranho alguns hábitos alimentares. Cade as frutas de sobremesa? Cade as frutas no café da manha? Só isso de salada? Onde estão os vegetais? Tem certeza que vai comer lasanha, feijão, churrasco e arroz piamontes, tudo junto e misturado? Sou obrigada a passar uma tarde inteira em um posto de gasolina no meio da estrada e consigo achar isso divertido. Nada melhor que boas companhias! Nada melhor que olhar as estradas brasileiras com outros olhos, agradecimento as blogueiras Aline e Kivia .Convido uma amiga para me acompanhar a um “passeio burocrático” a um cartório brasileiro e com isso aproveitarmos o tempo para colocarmos o papo em dia. E ela aceita! Como não amar? Revejo grandes amigos e tenho o prazer de conhecer seus filhos e de apresentar o Pimpolho. Tenho a esperança de que os filhos dos meus amigos se tornem amigos do meu filho. Comparo as temperaturas daqui e de lá. Extremos opostos que de alguma maneira devem se atrair. Já consigo ver vantagens em ambas e penso que devo estar me acostumando com o inverno… Algo que achava impossível alguns anos atrás. Penso em mim quando criança e adolescente e relembro a sentimento de não pertencer a este lugar. Percebo que ainda carrego este sentimento. Também não pertenço ao lugar onde moro agora. São esses lugares, e tantos outros que tive o prazer de conhecer, que me pertencem. Olho para esta cidade, para este pais e me sinto privilegiada. Foi daqui que surgi! Reflito sobre uma frase que li algum tempo atrás que eh mais ou menos assim:

“Não há nada como voltar a um lugar que permanece inalterado para descobrir de que maneira vc próprio mudou.”

Descubro que 3 semanas eh muito pouco para revisitar meu passado, todos os amigos e familiares. Ainda falta alguns dias para embarcarmos rumo ao céu nublado, ao frio e as pessoas menos calorosas… E eu já sinto saudades. Mas eu volto. Sempre voltarei! 😉

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