Barreiras

Eles entraram no ônibus junto comigo e com o Pimpolho. Eram mãe e filho. O filho, um pouco mais novo que o Pimpolho, tinha um semblante de quem esta apavorado e apertava a mão da mãe com toda forca contra o peito. A mãe, uma indiana, tinha um semblante tranquilo o que me fez pensar que a criança estava com medo de alguma coisa mas não era nada serio. Estacionamos os carrinhos do Pimpolho e do menininho no espaço reservado para carrinhos de bebes no ônibus. Ao lado do carrinho do menininho tinha um assento com indicação de prioridade para idosos, gravidas e etc. A mamãe indiana assentou-se para conseguir dar a mão para o filho. Eu e Pimpolho estávamos ao lado.

Na parada seguinte do ônibus, entra uma senhora com seu cachorrinho. A senhora era suíça e não aparentava ter muita idade pois se locomovia muito bem e aparentava ser aquele tipo de pessoa em paz consigo mesma. Sabe do que eu estou falando? Não, não a conheço. Mas eu sabia que se tratava de uma pessoa suíça… depois de um tempo aqui vc consegue, sem muita dificuldade, ter certeza de que algumas pessoas são suíças. Nem todos os suíços são facilmente identificáveis, mas alguns são. 🙂 Enfim… a mamãe indiana, meio que em um movimento de susto e de quem foi pega fazendo algo errado, se levantou do assento reservado aos idosos, sorriu para a senhora em um humilde pedido de desculpa, e ofereceu o lugar a ela. A senhora, por sua vez, sorriu amavelmente e disse em alemão:

“- Você não precisa me dar o seu lugar. Você estava assentada ai com o seu filho primeiro, tem o direito de ficar ai. Eu posso me assentar em outro lugar no ônibus”

A indiana visivelmente não entendia alemão. Então somente sorriu. A senhora, visivelmente não falava outra língua mas continuou sendo amável com a indiana. Em alemão mesmo. Ela então começou a falar que o cachorrinho dela tinha gostado da mamãe indiana por tinha se deitado próximo a ela. A mamãe indiana continuou sorrindo e visivelmente não entendendo nada do que a senhora falava mas, entendendo de que se tratava de uma situação de gentileza. Situação esta que, pela barreira linguística, e provavelmente também influenciada pelas barreiras culturais e da timidez, não poderia ser retribuído com nada além que um amável sorriso. E foi o que ela fez.

Fiquei observando aquela cena. Me senti no lugar da indiana por dois motivos que consegui identificar.

O primeiro deles eh a língua. Ainda não entendo tudo que eles falam em alemão, e em dialeto não entendo quase nada. Mas isso já foi bem pior e me alegro por ter decidido, ainda que tenha demorado para isto, fazer  o curso de alemão com mais seriedade e assim poder entender o que estava acontecendo no ônibus, por exemplo.

O segundo motivo eh morar em um pais que não eh o seu. Sim, eu sei, pagamos taxas aqui, trabalhamos aqui, criamos nossos filhos aqui, ajudamos a conservar o pais e então temos o direitos assim como os suíços. Mas ainda sim, lá no fundinho, acredito que todo expatriado saiba, mesmo que não conte nunca para ninguém, que esta em um pais que não eh o seu. Alguns reagem a isto com violência, com agressões como um senhor negro que gritou com minha prima no tram porque ela olhou para ele. Desceu do tram atrás dela, gritando que apesar de negro ele era suíço e a empurrando. Outros reagem como a indiana, pacificamente, humildemente se colocam fora de cena quase que pedindo desculpa por estar no pais do outro. Vi isto em um parquinho aqui perto de casa outro dia. Um menininho estava naquelas gangorras que cabem um monte de crianças. Tinha uns 8 anos de idade e se divertia sozinho pois o parquinho estava vazio. Ele conversava com a mãe que estava um pouco distante em uma língua que não consegui identificar. Chegaram então duas crianças, falando em dialeto, de mais ou menos 5 e 7 anos e foram em direção a mesma gangorra e começaram a tentar entrar na gangorra. Eles não pediram para o menino sair, e pelo que eu pude ver, eles queriam se juntar ao menino. Mas o menininho saiu da gangorra, com o mesmo semblante da indiana, humildemente, pacificamente como se estivesse fazendo algo errado. Foi em direção a mãe que então tentou distrai-lo com outro brinquedo.

Todos estes casos fazem o meu coração partir. Tanto a mamãe indiana e o menino do parque por reagirem com humildade, como o senhor negro que reagiu com tanta agressividade a um olhar casual. São casos que mostram que, mesmo em um pais pacifico muitas pessoas ainda carregam o sentimento de rejeição dentro delas. E isso eh triste.

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