Chá de alegria

Então vc entra naquele mundo paralelo de quem vive ocupada entre filho, trabalho, novos projetos, amigos gringos, visitas, ano novo que chega e etc… entre uma atividade e outra, naqueles 5 minutinhos de intervalo ou naqueles 5 minutinhos antes de desabar na cama, vc abre a Internet pra tentar se conectar com o seu país. Aquele seu país lá de longe onde estão todas aquelas pessoas que você ama tanto. E as notícias não são nada boas… como sempre. Daí bate aquela sensação de alívio por não morar mais lá, misturado com a sensação de saudade de tudo e de todos, com a sensação de incapacidade de fazer alguma coisa para ajudar, misturado com preocupação, misturada com mais um monte de outros sentimentos que vc nem mesmo consegue entender, decifrar, engolir… cheia de preocupação vc telefona, manda mensagem ou faz Skype com sua família e amigos, já preparada para consolá-los e oferecer a sua compaixão e o seu ombro-amigo-virtual. E a conversa sai mais ou menos assim:

Eu com voz cheia de preocupação : “oi, sou eu. Estou ligando para saber se está tudo bem com vcs?”

Amigo ou parente com a voz mais feliz do mundo: ” oiiiii! Que saudade! Tudo ótimo e vcs? Quando vcs vem nos visitar? Tá muito frio aí?”

Eu, já menos preocupada: “tá bem frio sim. Nevando.  Hoje fez -5 graus.”

Amigo ou parente ainda com a voz mais feliz do mundo: “- 5 graus? Nossa senhora! Coitados de vocês! Coitadinho do Pimpolho.Sai desse frio, vem pra cá! Aqui está um calor infernal, já tomei 3 banhos hoje. Quando vcs vem?”

Eu, tentando justificar a minha preocupacao:”Vamos em breve. Mas tá tudo bem aí mesmo?”

Amigo ou parente, ainda no maior alto astral: “Sim, tudo bem. As mesmas coisas de sempre. (Pausa para algumas reclamacoes sobre política, dengue, febre amarela, presídios e criminalidade). Mas tirando isso está tudo ótimo, graças a Deus. Fim de semana vou ver Fulano, Sicrano, etc. Talvez a gente faça um churrasco ou uma macarronada. Vamos levar as crianças pra brincar na praça…”

E a conversa sempre segue no maior astral. No final sou eu quem me sinto consolada, motivada e feliz. Conversar com brasileiro tem esse efeito para mim. Acreditem: a alegria que brasileiro trás dentro de si é muito revigorante e não se encontra por aí!

Me aguarde Brasil, este ano quero ver o seu céu! O mais azul de todos os céus que já vi! 💙🌎

Sobras

Almoço de “sobras”: restinho de arroz, restinho de feijão, restinho de abóbora, restinho de batata doce no azeite. Porque jogar comida fora é inaceitável.  Bom apetite para vc também.  🙏

Rotulos

Nunca gostei muito de rotulos. Sao quase sempre preconceituosos e limitantes. Mas eh provavel que eu os use sem perceber. Eh bem provavel… Eh quase impossivel nao usar algum rotulo na vida.

Desde que me mudei para a Suica penso muito sobre o assunto. Os rotulos que carregamos e como rotulamos as coisas, culturas e pessoas. Quando me mudei para a Suica, trouxe comigo todos os rotulos e famas que escutei sobre este pais a minha vida toda: pontuais, neutros, competentes, precisos, super organizados, super planejados etc… e era isso que eu esperava da Suica, era isso que esperei durante os primeiros anos que aqui vivi. Ate que me dei conta que, por mais que os rotulos representem a maioria ou a media da populacao, eles ainda sao so rotulos, ainda sao limitantes e preconceituosos. Ainda sao injustos e muitas vezes mentirosos. Ainda sao so “marketing”.

A “Suica” tambem me rotula. Sim, me rotula como brasileira cheia de gingado, adoradora de futebol, sambista, sempre atrasada, nao cumpridora de prazos, sempre feliz, sorridente e simpatica, despreocupada, aquela que estah aqui em busca de melhoria de vida, buscando recursos financeiros, buscando emprego melhor, buscando formacao, aquela que come carne, nao recicla o lixo etc.

E eu acho ate que o mundo poderia ser mais pacifico se cada um abaixasse a cabeca e simplesmente aceitasse o seu rotulo quietinho, caladinho e sem reclamar…

Mas sabe o que? Quando eu vejo que eu, uma brasileira, sou tambem (ou mais) organizada, cumpridora de regras, competente, pontual que um suico (a). Que eu reciclo meu lixo e a ainda faco composto em casa… Quando eu tenho consciencia de nao estou aqui somente para me melhorar e sim para melhorar o lugar onde vivo (este lugar poderia tambem ser o Brasil, como ja foi por 35 anos, ou qualquer outro lugar do mundo), entao meus amigos eu penso que esses rotulos nao servem mesmo para nada alem de atrapalhar.

Sim, dona Suica! Eu estou aqui para aprender mas tambem para te melhorar. E posso te contar um segredo? Acho que ja te melhorei um bocado, modestia a parte! E sim, ja aprendi um bocado tambem. Pois entao, aceite meus agradecimentos. Eu, com certeza, aceitarei os seus. De nada!  😉

A paz

Quando o mundo te assusta, quando as pessoas parecem todas estarem tentando escapar das suas responsabilidades, quando a hostilidade parece estar presente em cada email recebido, em cada esquina, em cada desconhecido  (e conhecido),  quando tudo parece ter o único objetivo de nos fazer perder em raiva, desapontamento,  desesperança… é  aí, meus amigos,  é justamente aí o ligar onde vc pode encontrar-se verdadeiramente em paz. Respire fundo, sorria, entregue e aguarde. Nem tudo é tão sério quanto parece. E se for, o que é que  podemos fazer a não ser esperar? De preferência pacientemente e seguro de que fizemos tudo que podíamos mas as vezes simplesmente não conseguimos.

Pois é  (los hermanos)

Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
Avisa que é de se entregar o viver
Avisa que é de se entregar o viver

Pois é, até
Onde o destino não previu
Sei mas atrás vou até onde eu consegui
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar
Clareia minha vida, amor, no olhar

https://youtu.be/cXWU12EHnp4

Bem vinda ao mundo “real”, Suica…

Semana retrasada estava eu, feliz e contente tomando um chá com uma amiga que me ajuda com o alemão aqui em Basel. Nos encontramos em um bar na região central da cidade. Nos despedimos perto do horário de almoço e quando eu peguei a minha bicicleta tive uma brilhante ideia: passar na lojinha indiana que vende produtos brasileiros para ver se tinha feijão. Minha sogra estava chegando, Marido e Pimpolho adoram feijão. Uhm, que delicia seria o jantar daquele dia!

Pois bem, peguei minha bicicleta, coloquei minha bolsa no cestinho, assim como todo mundo faz aqui em Basel. Pedalei por cerca de 5 minutinhos ate a lojinha indiana que fica quase em frente a estação de trem. Estaciono a bicicleta e quando olho para o cestinho… cadê a bolsa???

Fiquei naqueles 30 segundos de pamonha, tentando entender o que tinha acontecido. Tentando repensar meus passos, o trajeto. Tentando buscar alguma falha nos meus atos. Sera que esqueci no bar? Lembrei que logo que sai de lá, falei com minha sogra pelo celular. Putsss, o celular! Estava na bolsa. Eh novo! Ainda estou pagando mensalmente o celular. Resolvo refazer o caminho a pé. Quem sabe alguém pegou só o celular e jogou a bolsa fora? Meu Deus! Minha carteira estava lá. Os cartões de debito e credito! Preciso ligar para o banco e cancelar. Como vou fazer isso sem celular? As chaves de casa? Ja tremendo procuro as chaves no bolso do casaco. Por sorte elas estavam lá! Tranco a bicicleta e saio correndo de capacete na cabeça, olhos cheios d’agua, refaço o meu caminho na esperança do ladrão da Suíça ser gente boa e ter jogado pelo menos os documentos em algum lugar. Meu Deus! Os documentos! Meu visto para morar na Suíça! Minha carteira de motorista! Meu cartão do transporte publico daqui. E tantas outras coisas que fui lembrando aos poucos.

Ja quase de volta ao bar onde tinha tomado o chá, tremendo, chorando e sem saber o que fazer, peco ajuda a uma mulher que estava saindo de uma loja. Agradeço as minhas aulas de alemão!!! Consigo pensar em como eh bom ja conseguir falar um pouquinho dessa língua. Explico o que aconteceu e ela me ajuda a ligar para a policia. Procura o telefone do Marido na internet do celular dela já que eu não sabia e ainda não sei o numero de cabeça. Ela me acalma. Sugere onde devo ir e define prioridades para mim: banco para suspender os cartões, cancelar o celular e depois policia. Me da toda atenção e apoio possível. No final me abraça bem forte e me diz que esta tudo bem. Peco desculpas por coloca-la no meio disso. Ela me abraça de novo e me diz que não há problema. Pergunta se pode me ajudar com mais alguma coisa. Pergunta se estou bem e só segue seu caminho depois de perceber que eu já tinha voltado a minha razão. Sim, meus amigos! Existem anjos no mundo!

E assim começa a minha saga por novos documentos, cartões e celular. Depois de duas semanas, ainda continuo na saga, pago um preço bem salgadinho por cada nova segunda via de cartões ou documentos. Ainda espero pelo meu visto suíço. Da ultima vez que o renovei demorou seis meses para chegar um novo… Torço para que desta vez seja mais rápido.

Ainda não consegui tempo para comprar o feijão… mas uma outra amiga, brasileira, me deu feijão de presente. Outro anjo.

Cinco dias depois, Marido  vai a um jantar com os colegas de trabalho em um restaurante novo no Spalentor (pra quem eh de Basel). Estaciona sua bicicleta recém comprada e a acorrenta junto a um poste. A corrente era a mais grossa que havíamos encontrado na loja. Ele janta alegre e feliz e quando vai pegar a bicicleta… cadê a bicicleta??? No chão ele encontra a corrente cortada ao meio…

E assim começa a nossa saga com o seguro. É a primeira vez que usamos o seguro. Em menos de uma semana o acionamos duas vezes! Ainda não temos resposta de nada…

Dois dias depois recebemos uma correspondência dos administradores do prédio onde trabalho dizendo que câmeras foram instaladas em virtude de roubos recentes…

Alguns meses atrás entraram em uma casa aqui da rua. Já ouvimos também outras estórias similares.

Eh a Suíça saindo do mundo perfeito encantado e entrando no mundo “real”…
Não há mais tanto espaço para perfeição neste mundo, Switzerland… I am sorry… mas dá loucura do mundo atual não há como escapar. Adapta-se, por favor!

Para você que esta em Basel fica a minha sugestão: redobre a atenção!