Flores e respeito ao proximo

Alguns finais de semana atrás, saímos de casa com a intenção de colher morangos. Eh que o Pimpolho adora morango e eu tinha visto uma placa, aqui mesmo em Basel, indicando um terreno onde era possível colher os morangos e depois pagar pela quantidade colhida. Pois bem, lá fomos nos… e chegando la, vimos que a colheita de morangos já tinha acabado. Uma pena… Mas para não morrermos na praia, ou melhor, no campo, lembramos que no ultimo inverno tínhamos visto uma campo de flores onde era possível colher flores tipo self-service. Obviamente não tem flores no inverno e então guardamos o pensamento de voltarmos ali na primavera/verão. E foi o que fizemos e vou contar para vocês como funciona.

Trata-se de um campo, do tamanho de um quarteirão mais ou menos, onde vc pode colher vários tipos de flores. Era um sábado e então não tinha ninguém trabalhando lá no horário que fomos. Logo na entrada você se depara com o placar escrito o preço de cada tipo de flor. Tem uma casinha com chinelos de vários tamanhos para quem não quiser sujar os sapatos. Tem também varias faquinhas penduradas e eh com elas que as pessoas colhem as flores. Tem uma lata de lixo onde cada um pode limpar suas flores e organizar seus arranjos e assim deixar o lugar limpo. E tem os cofrinhos onde as pessoas deixam o dinheiro para pagar as flores que colher. E por ultimo os campos de flores.

Não, não tem ninguém te vigiando e calculando se o valor que vc esta pagando corresponde realmente as flores que colheu. Mas eu duvido que alguém não o faca corretamente. Não, não eh perigoso deixar facas penduras e ao alcance de qualquer um, inclusive das crianças. Alias, outro dia estava pensando sobre a proibição das chamadas “armas brancas” no Rio de Janeiro. Seria impossível fazer com que os suíços não andassem com seus famosos canivetes. Eu também ando com um canivete na bolsa. Não, não eh porque tenho medo de ser assaltada ou porque assalto as pessoas. Eh só para descascar a maçã do Pimpolho… 🙂

Gostamos muito deste passeio porque ensinamos ao Pimpolho como colher flores, alias ele as escolheu. Também o ensinamos que deveríamos pagar por elas porque alguém foi ali e as plantou com todo carinho para que pudéssemos colher e levar para casa. Ensinamos a ele a  ter cuidado com a faquinha. E claro, ele adorou colocar o dinheiro no cofrinho. 🙂

Para quem mora em Basel, isto tudo aconteceu no Bruderholtz. Fica a dica! 😉

Algumas fotos:

IMG_6292Placar com informação sobre os preços.

IMG_6290Na entrada, barraca com chinelos de varios tamanhos.

IMG_6293Cofrinho onde se paga as flores colhidas.

IMG_6297Campos de flores.

IMG_6304Nossa colheita. Flores escolhidas pelo Pimpolho.

Nossa língua portuguesa

Sai  de casa para fazer tandem com uma suíça. Para quem não  sabe, tandem é  quando vc quer aprender uma língua e a outra pessoa quer aprender a sua língua  e então  um ensina para o outro.  De graça,  é claro. No caso, eu obviamente  quero aprender alemao e ela portugues.  No bar onde estávamos  tinham  duas pessoas falando português.  Saimos de lá e andamos ate o ponto do tram. No caminho  escutei mais duas pessoas falando português.  Me despedi da minha  nova amiga e atravessei a rua. Comeco a andar e escuto uma mae conversando com o filho atras de mim.  Em português.  Entro numa loja para ver uma roupa e encontro mais gente falando portugues. Pego o tram para ir embora e têm  uma moça  falando no celular em português… Será  que preciso mesmo aprender alemão? :mrgreen:

Barreiras

Eles entraram no ônibus junto comigo e com o Pimpolho. Eram mãe e filho. O filho, um pouco mais novo que o Pimpolho, tinha um semblante de quem esta apavorado e apertava a mão da mãe com toda forca contra o peito. A mãe, uma indiana, tinha um semblante tranquilo o que me fez pensar que a criança estava com medo de alguma coisa mas não era nada serio. Estacionamos os carrinhos do Pimpolho e do menininho no espaço reservado para carrinhos de bebes no ônibus. Ao lado do carrinho do menininho tinha um assento com indicação de prioridade para idosos, gravidas e etc. A mamãe indiana assentou-se para conseguir dar a mão para o filho. Eu e Pimpolho estávamos ao lado.

Na parada seguinte do ônibus, entra uma senhora com seu cachorrinho. A senhora era suíça e não aparentava ter muita idade pois se locomovia muito bem e aparentava ser aquele tipo de pessoa em paz consigo mesma. Sabe do que eu estou falando? Não, não a conheço. Mas eu sabia que se tratava de uma pessoa suíça… depois de um tempo aqui vc consegue, sem muita dificuldade, ter certeza de que algumas pessoas são suíças. Nem todos os suíços são facilmente identificáveis, mas alguns são. 🙂 Enfim… a mamãe indiana, meio que em um movimento de susto e de quem foi pega fazendo algo errado, se levantou do assento reservado aos idosos, sorriu para a senhora em um humilde pedido de desculpa, e ofereceu o lugar a ela. A senhora, por sua vez, sorriu amavelmente e disse em alemão:

“- Você não precisa me dar o seu lugar. Você estava assentada ai com o seu filho primeiro, tem o direito de ficar ai. Eu posso me assentar em outro lugar no ônibus”

A indiana visivelmente não entendia alemão. Então somente sorriu. A senhora, visivelmente não falava outra língua mas continuou sendo amável com a indiana. Em alemão mesmo. Ela então começou a falar que o cachorrinho dela tinha gostado da mamãe indiana por tinha se deitado próximo a ela. A mamãe indiana continuou sorrindo e visivelmente não entendendo nada do que a senhora falava mas, entendendo de que se tratava de uma situação de gentileza. Situação esta que, pela barreira linguística, e provavelmente também influenciada pelas barreiras culturais e da timidez, não poderia ser retribuído com nada além que um amável sorriso. E foi o que ela fez.

Fiquei observando aquela cena. Me senti no lugar da indiana por dois motivos que consegui identificar.

O primeiro deles eh a língua. Ainda não entendo tudo que eles falam em alemão, e em dialeto não entendo quase nada. Mas isso já foi bem pior e me alegro por ter decidido, ainda que tenha demorado para isto, fazer  o curso de alemão com mais seriedade e assim poder entender o que estava acontecendo no ônibus, por exemplo.

O segundo motivo eh morar em um pais que não eh o seu. Sim, eu sei, pagamos taxas aqui, trabalhamos aqui, criamos nossos filhos aqui, ajudamos a conservar o pais e então temos o direitos assim como os suíços. Mas ainda sim, lá no fundinho, acredito que todo expatriado saiba, mesmo que não conte nunca para ninguém, que esta em um pais que não eh o seu. Alguns reagem a isto com violência, com agressões como um senhor negro que gritou com minha prima no tram porque ela olhou para ele. Desceu do tram atrás dela, gritando que apesar de negro ele era suíço e a empurrando. Outros reagem como a indiana, pacificamente, humildemente se colocam fora de cena quase que pedindo desculpa por estar no pais do outro. Vi isto em um parquinho aqui perto de casa outro dia. Um menininho estava naquelas gangorras que cabem um monte de crianças. Tinha uns 8 anos de idade e se divertia sozinho pois o parquinho estava vazio. Ele conversava com a mãe que estava um pouco distante em uma língua que não consegui identificar. Chegaram então duas crianças, falando em dialeto, de mais ou menos 5 e 7 anos e foram em direção a mesma gangorra e começaram a tentar entrar na gangorra. Eles não pediram para o menino sair, e pelo que eu pude ver, eles queriam se juntar ao menino. Mas o menininho saiu da gangorra, com o mesmo semblante da indiana, humildemente, pacificamente como se estivesse fazendo algo errado. Foi em direção a mãe que então tentou distrai-lo com outro brinquedo.

Todos estes casos fazem o meu coração partir. Tanto a mamãe indiana e o menino do parque por reagirem com humildade, como o senhor negro que reagiu com tanta agressividade a um olhar casual. São casos que mostram que, mesmo em um pais pacifico muitas pessoas ainda carregam o sentimento de rejeição dentro delas. E isso eh triste.

Hortinhas

Chego no escritório para trabalhar e sobre a minha mesa encontro uma sacola com um pé de alface. Presente do meu colega de trabalho, colhido hoje cedinho da horta que ele tem na casa dele.

A tarde, volto para casa toda feliz com o meu pé de alface. A campainha toca. Era o vizinho trazendo uma bacia de cerejas também fresquinhas e colhidas na hora.

Este ano também entramos no clima. Ou melhor, o Marido também entrou no clima e fez uma pequena horta no quintal de casa. Eh que agora moramos em uma casa. 🙂

Somos marinheiros de primeira viagem e confesso que algumas coisas que tentamos plantar morreram logo na primeira semana. Mas agora a hortinha parece que pegou o jeito e então já saboreamos salada de rúcula fresquinha algumas vezes. Os pés de tomate vão de vento em “polpa”, com vários tomates ainda pequeninos. Prometem! Tem também vagem, brócolis, hortelã, manjericão, alecrim, nussli salada ( uma salada típica daqui) e mais alguma outra coisinha que não me lembro agora. A nossa vizinha, que eh russa e tb marinheira de primeira viagem no mundo das hortas, tem se dedicado a horta do quintal dela que  está bem bonita. O vizinho do outro lado, que eh alemão, não tem horta mas tem um pé de maçã cheinho. Já o vizinho que mora duas casas depois, um senhorzinho suíço, tem um pé de pêra também cheinho. Lindo de ver.

E assim vamos trocando nossas verdurinhas e frutinhas aproveitando os pequenos espaços que temos e os usando para produzir coisas gostosas. Vivendo na cidade mas tendo um gostinho do campo. Eh assim essa Suíça…

 Cerejas e alface: os presentes de hoje. 🙂

Bom dia para você também!

Saio de casa com uma leve chuva e mesmo assim protejo minha mochila com um saco plástico e visto uma jaqueta impermeável. Pedalo cerca de um quilometro e então a leve chuva vira a maior chuva que já vi aqui em Basel. Sou obrigada a parar a bicicleta em uma pequena marquise ao lado de uma sapataria. O senhorzinho dono da sapataria vê que estou tentando me esconder daquele inesperado temporal e me convida para entrar. Que simpático! Eu agradeço e fico ali debaixo da marquise mesmo já que pensei que a chuva não duraria mais que 5 minutos. Espero os 5 minutos, e mais cinco e mais cinco… no final já se vão 35 minutos… ligo para meu medico e cancelo a consulta. Não tem como chegar lá com aquela chuva e de bicicleta. Não da tempo de voltar para casa e pegar um guarda chuva e ir de ônibus.

Decido então voltar para casa debaixo da  chuva forte mesmo. Chego em casa pingando dos pés a cabeça. Vejo que também perdi o horário da aula de alemão. Paciência… me troco e começo a trabalhar. A chuva então para… claro, né? Os vizinhos do lado começam a fazer uma reforma na casa que eh colada parede com parede com a minha. O meu trabalho eh ao som de martelo, furadeira e sei la mais o que. Nada agradavel…

E a semana esta só começando…

Bom dia para você também! 😉

Musiquinhas para dias ensolarados

Hoje escutei duas musicas tao bacanas que quero compartilhar aqui.

A primeira eh dos meninos la de Minas e me fez lembrar da terrinha e de quando eu era adolescente e assisti a um dos primeiros shows deles na pracinha perto da escola. Depois muitas outras musicas e shows vieram. Eu sou fa nao so do grupo mas do Samuel como compositor.

A segunda eh de uma moca (suica-espanhola) chamada Miriam Crespo que trabalhou na empresa onde eu trabalhei aqui em Basel. Ate onde eu sei, cantar eh o hobby dela. E ca para nos, que hobby feito com carinho! Para quem gostar do estilo aqui esta o link para o site dela com outras cancoes (http://miriamcrespo.com/)

Divirtam-se!

O que eh ser livre?

Ela entrou no ônibus uma estação antes de descermos. Pedi ao Pimpolho que se levantasse da cadeira onde estava sentado para dar lugar para que ela entrasse com o seu andador. Era uma senhorinha que mal se aguentava em pé mas que pelo jeito andava para cima e para baixo, lentamente, com o seu amigo andador. Por aqui eles são muito usados. Eu diria que não pelo fato da cidade ter uma população considerável de idosos, mas também porque as ruas, os parques, prédios, muitos restaurantes e também os transportes públicos terem sido planejados pensando nisto: nem todo mundo pode se locomover com suas próprias pernas e sem maiores dificuldade. Eh assim que os cadeirantes também se locomovem pela cidade: sem muita dificuldade, entrando e saindo dos transportes públicos por muitas vezes sozinhos e contanto com a ajuda do motorista que calmamente deixa o seu posto ao volante, anda ate a porta de passageiro, abre uma rampa de acesso e ajuda o cadeirante a entrar. La dentro já tem o lugar reservado para os cadeirantes com cinto de segurança e tudo. Este mesmo lugar também serve para os andadores dos idosos, para as bicicletas ou para os carrinhos dos bebes. Não há briga pelo espaço. Normalmente, mesmo que o transporte publico esteja lotado, há espaço para todo mundo. E no pior dos casos pode-se esperar pelo próximo ônibus ou tram que normalmente vem após 7 minutos.

Pois bem, foi assim que a senhorinha de hoje entrou lentamente mas sem maiores dificuldades no ônibus onde estávamos. Eu e Pimpolho abrimos espaço para que ela passasse e então ela “estacionou” o seu andador ao nosso lado e assentou-se sobre ele. Ah! Para quem não sabe o andador eh também um banquinho pois assim, quando cansados, os idosos podem facilmente se assentar para recuperar o fôlego. Logo depois que o ônibus arrancou, eu e Pimpolho nos preparamos para descer. Eu meio atrapalhada, segurava a mãozinha dele enquanto puxava o carrinho e segurava uma sacola com a outra mão. Foi então que ao tentar descer do ônibus vi que a mesma senhorinha também queria descer e não tinha visto o carrinho do Pimpolho. Meio que trombamos na porta do ônibus, olhamos uma para a cara da outro, sorrimos e pedimos desculpas uma a outra ao mesmo tempo. Depois, nos desejamos um bom dia e então fiquei observando os seus passos lentos e incertos se distanciarem de mim e do Pimpolho, que parou para ver um carrinho numa vitrine.  Foi por isso que tive tempo de observar a cena toda. A senhorinha e seu andador atravessaram muito lentamente 2 ruas, passaram em frente ao supermercado e entraram no banco. Alguns minutos depois, a senhorinha saiu do banco, atravessou mais uma rua e entrou no supermercado. Assisti a tudo como se fosse em câmera lenta e durante todo o tempo eu pensava em como esta senhorinha eh livre para desfrutar a sua vida sem correr risco de ser assaltada, atropelada, desrespeitada ou esfaqueada (dizem que eh a “nova” moda em algum pais por ai…). Fiquei me lembrando de um tempo atrás quando minha mãe, que nem eh velhinha e se locomove muito bem, pegou um ônibus, foi ate ao banco buscar a sua aposentadoria e quando esperava o ônibus para voltar para casa viu que sua bolsa havia sido rasgada e todo dinheiro do mês roubado sem que ela percebesse. E que quando contava isso as pessoas, inclusive nos os filhos, a reação era sempre a mesma:

” Mas você eh maluca de ir buscar dinheiro no banco sozinha e ainda de ônibus? Você teve muita sorte deles não terem te machucado. Nunca mais faca isso. Que perigo!”

Eh assim… a minha mãe foi muito irresponsável e muito maluca por pensar que era livre morando aonde mora… 😦