Sobre radicalizar-se

La em Belo Horizonte, ja faz muito tempo, o pessoal costuma colar um adesivo nos carros e nas janelas das casas. Tem gente que tem ate camisa com o mesmo slogan: “Eu amo BH radicalmente”.

Apesar de gostar de quase tudo que BH oferece, nunca me identifiquei com este slogan. Achava meio “bairrista” demais. Tudo bem que morro de saudades de BH. Mas dai a amar a cidade “radicalmente” vai uma looonga distancia. Os belo-horizontinos radicais que me desculpem mas BH nao eh o melhor lugar do mundo! Mesmo tendo um monte de coisas “melhor do mundo”, tipo a feira na Afonso Pena domingo de manha, pao de queijo quentinho em todo lugar que a gente vai, mercado central, lagoa da Pampulha e gente “boa pra dana”, etc.

Mas o post eh sobre “radicalizar”… porque fiquei pensando sobre isto hoje enquanto trocava algumas mensagens no WhatsApp com minha tia que mora em BH. Ela me mandou uma mensagem hoje pela manha preocupada conosco devido aos sucessivos atentados terroristas na Europa. Atentados esses fruto de que, minha gente? Fruto de radicalizacao, de extremismo.

Depois comentamos sobre as proximas eleicoes nos EUA. Tambem muito, muito preocupante, vamos combinar. E por que, minha gente? Por causa da radicalizacao, da ideia de extremismo que tem tomado conta de muita gente por la. A proposta mais “famosa” de um dos candidatos eh construir um muro entre o Mexico e os EUA. Um muro! Ou melhor, mais um muro…

Pois a prosa foi rendendo, rendendo e inevitavelmente comentamos sobre a situacao politica do Brasil. Situacao mais que muito preocupante, vamos combinar tambem. E preocupante, dentre tantas outras coisas mas tambem por que, minha gente? Por causa da tal radicalizacao e dos extremismos. Fomos reduzidos a Pro ou Contra governo. Coxinha ou Petralha. Assim como em BH tem que ser Cruzeiro ou Atletico no futebol. E quem torce pro America? E quem nao gosta de futebol? Ou quem gosta de futebol, torce por um jogo justo  e bonito de se ver mas nao torce pra time nenhum? E quem quer que, independente do lado que for, venca o melhor. E quem torce “so” (como se fosse pouco) pelo respeito a opiniao do outro e pelo direito de ter uma opiniao diferente? Meio termo nao existe mais, ne? E quem nao gosta dos extremos? Estar no centro, significa o que neste “modelo atual brasileiro”? Significa ficar em cima do muro, nao se comprometer, merecer ser xingado, entre outras coisinhas mais… Quer coisa mais radical, minha gente? Quer coisa mais extrema?  Que caminho eh este que estamos tomando?

Ja dizia nosso amigo Buda trocentos anos-luz atras: “Bom mesmo eh o caminho do meio” (traducao livre, de minha autoria mesmo, sem referencia bibliografica mas muito verdadeira).

Pois bem, outro dia lendo os comentarios do Prof. Leandro Karnal me deliciei com suas respostas a seguidores que o colocam contra a parede para que ele de uma opiniao clara sobre o lado politico (ou seria extremidade?) que ele apoia. E algumas das respostas sao:

“eu sempre estive do mesmo lado, as pessoas é que foram para as pontas.” 

10330493_1693972437511788_2693200995232030596_n

Neste momento de radicalismos e extremismos, a minha vigilia eh simplesmente para que eu consiga permanecer no meio. O caminho do meio eh a minha meta. E eu vou contar uma coisa para voces: isso da um trabalho danado!  Aos amigos das extremidades, TODAS as extremidades, deixo essa simples tarefa: Escreva, ate a mensagem entrar na sua mente e na sua alma, a seguinte frase:

10329207_1693977800844585_4036210600451106420_n

Fonte: facebook Prof. Leandro Karnal.

_/\_

PS: para quem se interessar, existem varias palestras do Prof. Leandro Karnal no youtube.

 

Data de vencimento

Ja desconfiava. Mas agora tenho certeza. Minha saudade do Brasil tem data de vencimento. Ela eh suportável por, no máximo, 12 longos meses. Dentro dos quais tenho varias “suportáveis” recaídas. Daquelas que se “curam” com um almocinho de arroz com feijão, uma colherada de doce de leite ou vários brigadeiros. Daquelas que “passam” e são “esquecidas” com rádio tocando alto um sambinha, pagode, musica caipira, MPB ou qualquer som que toque a minha brasilidade. Sabe do que estou falando? Aquela recaída que “melhora” com 15 minutinhos no Skype com a família, ou algumas mensagens no WhatsApp. Isso tudo funciona bem, desde que dentro do prazo de validade! Que como já disse… expira em, no máximo, 12 longos meses (as vezes, muitas vezes, menos)…

Mas e depois disso, minha gente? Depois da data de vencimento da saudade, a gente faz o que? Me diga!

Eu por exemplo, já apelei ate para a canjica! Sabe aquela canjica de festa junina? Cremosinha? Com leite de coco? Pois bem, a danada da saudade apertou foi mais!

Depois dos prazo de validade, ainda não encontrei nada que me desse um certo alivio, um calorzinho no peito, um aconchego… Muito pelo contrario, os antídotos usados durante o prazo de validade, atuam agora como geradores de mais saudade. Na esperança de achar uma solução, tenho usado vários antídotos ao mesmo tempo: como arroz com feijão, escutando musica brasileira, bebendo suco de abacaxi com hortelã, enquanto o doce de leite me espera na geladeira. Funciona? Funciona nada. Da eh mais saudade! Coloco musica brasileira pra tocar e danço com o Pimpolho enquanto ensino para ele que eh musica do Brasil. Funciona? Funciona nada. Da eh mais saudade!

Acho que o que me cabe agora, eh esperar pelo santo dia de pisar em terras minhas. Data ainda indefinida por vários fatores pessoais, familiares, profissionais e ate “mosquitais” (era só o que me faltava…). Ate lá vou curtindo minha saudade com doses diárias de discretas gotinhas de lágrima nos olhos, aperto no peito e nozinho na garganta…

“Yo no sé de dónde soy,
mi casa está en la frontera
Y las fronteras se mueven,
como las banderas.
y si hay amor, me dijeron,
toda distancia se salva. “ – Jorge Drexler, Frontera.

 

Voce tem saudades?

Outro dia uma senhora brasileira que mora aqui há muitos anos veio conversar comigo. Ela me identificou como brasileira depois que o Pimpolho disparou a falar portugues bem alto em uma loja. Ela veio toda animada elogiando o português dele que eh fluente e “perfeito” para a idade dele, eh claro! Ja a senhora, depois de tantos anos aqui já não falava mais português bem. Tinha dificuldade em encontrar as palavras e misturava a frase com algumas palavras em alemão. Conversamos um pouco e após ouvir calmamente a opiniao “um tanto quanto absurda e fantasiosa” desta senhora sobre a  situação política do Brasil (não vou entrar em detalhes), ela concluiu a conversa com a seguinte frase:

“- Não da para sentir saudades de lá, da?”

Da sim, minha senhora! Como eh que eu não vou sentir saudades do meu pais e da minha Minas Gerais? Me diz, como?

Lugares de Minas_2015-12-15_19-13-41

 

Doce

“Acabou-se o que era Doce.”

Meu avo, mineiro, usava este proverbio. Minha mae ainda o usa. Sempre o escutei. Desde de crianca pequenininha la em Minas, aquele lugar onde ainda eh a minha casa… O que eu nunca pensei, eh que o Doce pudesse mesmo acabar. Acabar assim… de verdade verdadeira, subitamente, em um mar de lama.

Ahhh, Drummond… so voce consegue ser asssim… tao representante do povo mineiro. Obrigada, Drummond!

 

“Lira Itabirana”, Carlos Drummond de Andrade, 1984

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?