Rotulos

Nunca gostei muito de rotulos. Sao quase sempre preconceituosos e limitantes. Mas eh provavel que eu os use sem perceber. Eh bem provavel… Eh quase impossivel nao usar algum rotulo na vida.

Desde que me mudei para a Suica penso muito sobre o assunto. Os rotulos que carregamos e como rotulamos as coisas, culturas e pessoas. Quando me mudei para a Suica, trouxe comigo todos os rotulos e famas que escutei sobre este pais a minha vida toda: pontuais, neutros, competentes, precisos, super organizados, super planejados etc… e era isso que eu esperava da Suica, era isso que esperei durante os primeiros anos que aqui vivi. Ate que me dei conta que, por mais que os rotulos representem a maioria ou a media da populacao, eles ainda sao so rotulos, ainda sao limitantes e preconceituosos. Ainda sao injustos e muitas vezes mentirosos. Ainda sao so “marketing”.

A “Suica” tambem me rotula. Sim, me rotula como brasileira cheia de gingado, adoradora de futebol, sambista, sempre atrasada, nao cumpridora de prazos, sempre feliz, sorridente e simpatica, despreocupada, aquela que estah aqui em busca de melhoria de vida, buscando recursos financeiros, buscando emprego melhor, buscando formacao, aquela que come carne, nao recicla o lixo etc.

E eu acho ate que o mundo poderia ser mais pacifico se cada um abaixasse a cabeca e simplesmente aceitasse o seu rotulo quietinho, caladinho e sem reclamar…

Mas sabe o que? Quando eu vejo que eu, uma brasileira, sou tambem (ou mais) organizada, cumpridora de regras, competente, pontual que um suico (a). Que eu reciclo meu lixo e a ainda faco composto em casa… Quando eu tenho consciencia de nao estou aqui somente para me melhorar e sim para melhorar o lugar onde vivo (este lugar poderia tambem ser o Brasil, como ja foi por 35 anos, ou qualquer outro lugar do mundo), entao meus amigos eu penso que esses rotulos nao servem mesmo para nada alem de atrapalhar.

Sim, dona Suica! Eu estou aqui para aprender mas tambem para te melhorar. E posso te contar um segredo? Acho que ja te melhorei um bocado, modestia a parte! E sim, ja aprendi um bocado tambem. Pois entao, aceite meus agradecimentos. Eu, com certeza, aceitarei os seus. De nada!  😉

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Todos unidos pelo idioma alemão

Tudo bem que minhas ferias já se acabaram a muito tempo… mas eh quando o curso de alemão começa eh que realmente sinto que a minha rotina voltou ao normal. Neste curso somos: uma colombiana, uma canadense, uma indiana, uma italiana, uma mexicana, uma israelense, duas tailandesas, uma da Letônia e um único homem: sírio.

Como não gostar de um idioma que me da a oportunidade de conhecer e conversar com pessoas de tão diferentes culturas? 😉 Nem todos ali falam inglês…

Como não gostar de um idioma que me da a oportunidade de entender um (ainda) “simples” poema do Goethe, sem necessidade de tradução? 😉

Bom curso para nos!

Hat alles seine Zeit

Das Nahe wird weit

Das Warme wird kalt

Der Junge wird alt

Das Kalte wird warm

Der Reiche wird arm

Der Narre gescheit

Alles zu seiner Zeit. ” (Goethe)

Sobre a Itália

Ahhhh! A Itália… Itália é um país lindo e maravilhoso que eu costumo chamar de minha segunda casa, mesmo nunca tendo morado lá. E muito provavelmente “porque” eu nunca tenha morado lá. Então tudo fica no imaginário onde acredito eu, por questão de sobrevivência e inteligência,  a nossa memória é capaz de selecionar e arquivar principalmente os momentos e as coisas boas. E como tem coisa boa na Itália… comida, música, o mar mais azul que ja vi, pessoas simpáticas, uma certa dose de informalidade,  etc e tal. Mas tb, como em todo lugar, a Itália e sua cultura estão longe de serem perfeitas.

Eh na Itália,  por exemplo, que alguns dos amigos e amigas de infância  do meu marido só me comprimentam quando eu estou ao lado dele. Caso contrário eles me ignoram e fingem que não me conhecem.  O mesmo acontece com várias senhoras e senhores amigos da minha sogra. Descarte o motivo deles não falarem a minha língua pois apesar de não ser perfeito, o meu italiano é bom o suficiente.

É na Itália, por exemplo, que os estrangeiros são mais respeitados quando são introduzidos e apresentados por um italiano. E mesmo assim, é importante deixar claro caso você tenha uma boa  formação acadêmica e um bom diploma. Acredite, isto vai te garantir alguns “Buon giorno(s)” a mais.

É na Itália, por exemplo, que as pessoas negras são  chamadas de pessoas “de cor”. E quando um italiano fala isso comigo eu sempre fico pensando que todo mundo tem alguma cor e que então deve haver um preconceito atras desta expressão. É também na Itália onde os negros recebem muitos olhares como se fossem de outro planeta. Foi em uma cidadezinha da Itália que vi uma rua inteira virar a cabeca para olhar uma linda jovem negra que passeava de maos dadas com o seu namorado italiano e branco.

É também na Itália,  por exemplo, que todo mundo, principalmente os familiares mas nao somente eles, acha que tem o direito de interferir na educação que voce dá ao seu filho.  Atropelam opiniões e tomam atitudes sem nem mesmo consultar os pais. E é também na Itália que tenho que a todo tempo lembrar ao meu marido, que é italiano,  que quem decide a educação que daremos ao nosso filho somos nós e não o resto da família que tenta o tempo todo se impor.

É na cultura italiana, por exemplo, que tive que bater o pé para decidir o nome que queria colocar no meu filho, e não repetir o nome do avô,  bisavô,  tio do bisavô ou sei la mais quem havia naquela árvore genealógica que me mandaram quando eu estava grávida. Era cada nome…

É na Itália,  por exemplo, que as pessoas gritam umas com as outras e acham que isto é normal.

Foi na Itália, por exemplo, que o garçom do bar onde tomávamos um aperitivo jogou água com um revolverzinho nas costas do Pimpolho e queria que ele achasse graça disso. Obviamente ele chorou muito. Obviamente eu não achei graça de ver meu filho chorando assustado. E obviamente o garçom achou que nós é que éramos estranhos.

É na Itália, por exemplo, que pessoas com  boa formação sempre perguntam ao Pimpolho, que tem dois anos de idade, se ele quer experimentar vinho, wisky e grapa. Isso sem que ele tenha nem mesmo desperdado alguma curiosidade para as bebidas em questão. E é  na Itália que eu, mãe do Pimpolho,  tenho que ser a chata estraga prazeres que responde “não” por ele e o explica que ele nao deve beber bebida alcoólica aos dois anos de idade. Obvio, não?

É na Itália, por exemplo, que os fumantes se assentam ao lado das crianças, incluindo bebês recém nascidos, e acendem um cigarro sem a menor cerimônia.

É na Itália, por exemplo,  que um convite de alguém da família se transforma muitas vezes em uma obrigação totalmente fora dos seus planos e limites, mas tem que ser aceito porque família  é família. É na Itália,  então,  que eu sou por muitas vezes a chata cabeça dura que não quis abrir mão dos meus planos.

É na Itália, por exemplo, que as filipinas sao as babas das crianças.  É também nas praias da Itália que as crianças brincam e são educadas pelas filipinas enquanto muitas mães fumam e conversam animadamente e gesticulosamente com suas amigas. Nada contra as filipinas que pelo que pude ver sao muito carinhosas com as crianças.  Foi na Itália que o Pimpolho conheceu uma amiguinha e brincou com ela diariamente durante duas semanas e eu nao tenho ideia de quem seja a sua mae ou algum outro parente pois so conheci a sua babá, que era filipina.

É na Itália onde muitas pessoas falam sem ponto,  vírgula ou qualquer outro tipo de intervalo. É na Itália onde muitas mulheres tem a voz grossa, rouca e masculinizada devido ao tanto que fumam. Ou, no caso de nao serem fumantes, em alguns casos, elas tem as vozes mais estridentes e irritantes que ja ouvi. Esse tópico é facilmente observado nos canais da televisão italiana.

É na Itália que sempre passo minhas férias a alguns anos. E são  destes periodos de ferias que tirei todas essas observacoes.

Intimidade

Ja dizia  um querido amigo  meu: ” o que mata  é a intimidade “.

Eu ja desconfiava  que as minhas idas constantes ao médico para tratar da minha coluna estavam criando alguma intimidade não só com o meu médico mas  também com sua  secretária.  Mas como  ambos são suíços não tinha certeza disso. Disse não tinha… até a minha  consulta da semana passada.
Foi assim… cheguei  ao consultório num calor de 37graus. Sol de rachar mamona e ar parado. Nenhum ventinho, nenhum arzinho. Dou boa tarde para a secretária que parece estar  derretendo e pergunto se ela gosta de calor.
“- não,  eu não  gosto.” Responde ela.
E continua:
“-eu nao gosto  de calor  porque  as pessoas  fedem.”
Eu sorrio meio espantada com a declaração e ela coloca o dedo na boca em sinal de silêncio me pedindo para não contar para ninguém.  Depois da uma risadinha balançando a mão  em frente ao nariz e fazendo uma careta.
Juro que se não tivesse tomado banho antes de ir para a consulta, ficaria preocupada… mas era só  excesso de intimidade mesmo. Esses suíços… 😂🙊

Hortinhas

Chego no escritório para trabalhar e sobre a minha mesa encontro uma sacola com um pé de alface. Presente do meu colega de trabalho, colhido hoje cedinho da horta que ele tem na casa dele.

A tarde, volto para casa toda feliz com o meu pé de alface. A campainha toca. Era o vizinho trazendo uma bacia de cerejas também fresquinhas e colhidas na hora.

Este ano também entramos no clima. Ou melhor, o Marido também entrou no clima e fez uma pequena horta no quintal de casa. Eh que agora moramos em uma casa. 🙂

Somos marinheiros de primeira viagem e confesso que algumas coisas que tentamos plantar morreram logo na primeira semana. Mas agora a hortinha parece que pegou o jeito e então já saboreamos salada de rúcula fresquinha algumas vezes. Os pés de tomate vão de vento em “polpa”, com vários tomates ainda pequeninos. Prometem! Tem também vagem, brócolis, hortelã, manjericão, alecrim, nussli salada ( uma salada típica daqui) e mais alguma outra coisinha que não me lembro agora. A nossa vizinha, que eh russa e tb marinheira de primeira viagem no mundo das hortas, tem se dedicado a horta do quintal dela que  está bem bonita. O vizinho do outro lado, que eh alemão, não tem horta mas tem um pé de maçã cheinho. Já o vizinho que mora duas casas depois, um senhorzinho suíço, tem um pé de pêra também cheinho. Lindo de ver.

E assim vamos trocando nossas verdurinhas e frutinhas aproveitando os pequenos espaços que temos e os usando para produzir coisas gostosas. Vivendo na cidade mas tendo um gostinho do campo. Eh assim essa Suíça…

 Cerejas e alface: os presentes de hoje. 🙂