Cora Coralina – Não sei

Não sei

Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

Flores e respeito ao proximo

Alguns finais de semana atrás, saímos de casa com a intenção de colher morangos. Eh que o Pimpolho adora morango e eu tinha visto uma placa, aqui mesmo em Basel, indicando um terreno onde era possível colher os morangos e depois pagar pela quantidade colhida. Pois bem, lá fomos nos… e chegando la, vimos que a colheita de morangos já tinha acabado. Uma pena… Mas para não morrermos na praia, ou melhor, no campo, lembramos que no ultimo inverno tínhamos visto uma campo de flores onde era possível colher flores tipo self-service. Obviamente não tem flores no inverno e então guardamos o pensamento de voltarmos ali na primavera/verão. E foi o que fizemos e vou contar para vocês como funciona.

Trata-se de um campo, do tamanho de um quarteirão mais ou menos, onde vc pode colher vários tipos de flores. Era um sábado e então não tinha ninguém trabalhando lá no horário que fomos. Logo na entrada você se depara com o placar escrito o preço de cada tipo de flor. Tem uma casinha com chinelos de vários tamanhos para quem não quiser sujar os sapatos. Tem também varias faquinhas penduradas e eh com elas que as pessoas colhem as flores. Tem uma lata de lixo onde cada um pode limpar suas flores e organizar seus arranjos e assim deixar o lugar limpo. E tem os cofrinhos onde as pessoas deixam o dinheiro para pagar as flores que colher. E por ultimo os campos de flores.

Não, não tem ninguém te vigiando e calculando se o valor que vc esta pagando corresponde realmente as flores que colheu. Mas eu duvido que alguém não o faca corretamente. Não, não eh perigoso deixar facas penduras e ao alcance de qualquer um, inclusive das crianças. Alias, outro dia estava pensando sobre a proibição das chamadas “armas brancas” no Rio de Janeiro. Seria impossível fazer com que os suíços não andassem com seus famosos canivetes. Eu também ando com um canivete na bolsa. Não, não eh porque tenho medo de ser assaltada ou porque assalto as pessoas. Eh só para descascar a maçã do Pimpolho… 🙂

Gostamos muito deste passeio porque ensinamos ao Pimpolho como colher flores, alias ele as escolheu. Também o ensinamos que deveríamos pagar por elas porque alguém foi ali e as plantou com todo carinho para que pudéssemos colher e levar para casa. Ensinamos a ele a  ter cuidado com a faquinha. E claro, ele adorou colocar o dinheiro no cofrinho. 🙂

Para quem mora em Basel, isto tudo aconteceu no Bruderholtz. Fica a dica! 😉

Algumas fotos:

IMG_6292Placar com informação sobre os preços.

IMG_6290Na entrada, barraca com chinelos de varios tamanhos.

IMG_6293Cofrinho onde se paga as flores colhidas.

IMG_6297Campos de flores.

IMG_6304Nossa colheita. Flores escolhidas pelo Pimpolho.

Bom dia para você também!

Saio de casa com uma leve chuva e mesmo assim protejo minha mochila com um saco plástico e visto uma jaqueta impermeável. Pedalo cerca de um quilometro e então a leve chuva vira a maior chuva que já vi aqui em Basel. Sou obrigada a parar a bicicleta em uma pequena marquise ao lado de uma sapataria. O senhorzinho dono da sapataria vê que estou tentando me esconder daquele inesperado temporal e me convida para entrar. Que simpático! Eu agradeço e fico ali debaixo da marquise mesmo já que pensei que a chuva não duraria mais que 5 minutos. Espero os 5 minutos, e mais cinco e mais cinco… no final já se vão 35 minutos… ligo para meu medico e cancelo a consulta. Não tem como chegar lá com aquela chuva e de bicicleta. Não da tempo de voltar para casa e pegar um guarda chuva e ir de ônibus.

Decido então voltar para casa debaixo da  chuva forte mesmo. Chego em casa pingando dos pés a cabeça. Vejo que também perdi o horário da aula de alemão. Paciência… me troco e começo a trabalhar. A chuva então para… claro, né? Os vizinhos do lado começam a fazer uma reforma na casa que eh colada parede com parede com a minha. O meu trabalho eh ao som de martelo, furadeira e sei la mais o que. Nada agradavel…

E a semana esta só começando…

Bom dia para você também! 😉

Mc Donald X Pato Donald

Estavamos eu e Marido conversando enquanto o Pimpolho brincava aparentemente alheio aos nossos assuntos.

A conversa era sobre manifestacoes de rua em que vimos  pessoas agressivamente criticando quem gostasse de comer no Mc Donald e demais fast foods. Ficamos meio sem entender toda aquela agressividade. Nao por gostarmos do Mc Donald e outros fast foods mas por acharmos desnecessario argumentos agressivos como aqueles. Enfim, no final da conversa, eu, ja cansada, solto esta exclamacao:

“- Ai gente, que preguica. Deixa quem quiser comer no Mc Donald em paz…”

E o Pimpolho, na sua fase “repete-tudo” e sem nunca nem mesmo ter sentido o cheiro do Mc Donald, para de brincar por um minuto, vira pra gente com cara de quem perdeu a paciencia e solta:

” – Ai gente, deixa o Pato Donald em paz!”

Rimos bicas!

Ajudando a ser ajudado

Ja nem me lembro mais como foi que cheguei ate o blog da Kivia, o Kiviagem. So sei que desde de o primeiro momento fiquei fascinada pelas historias, pela iniciativa, pela leveza, pela liberdade, pela beleza e, não vou mentir, pelo fato dela ser mineira como eu e falar com o mesmo sotaque!

Para quem ainda não conhece, a Kivia eh uma mineira que largou o emprego e saiu por ai se aventurando pelo mundão afora. E com as aventuras dela nos, seguidores do blog, aprendemos um bocado sobre historia, sobre liberdade e principalmente sobre simplicidade. Não, eu não conheço a Kivia pessoalmente. Ainda nao… Somente nos falamos algumas vezes através de mensagens pois quis agradece-la por nos dar o prazer da leitura do seu blog, da sua pagina do facebook, dos seus textos inteligentes, emocionantes e maravilhosos. E eh por isso mesmo que não vejo a hora de ler o livro que a Kivia, de maneira independente, escreveu! E espero que mais e mais pessoas também tenham esta sorte!

Como o livro foi escrito de maneira independente, ele precisa de “doações” para ser impresso. Digo “doações” porque na verdade o que acontece eh uma “pré-compra” uma vez que os doadores receberão o livro impresso em casa. Isto se o valor mínimo para as impressões for alcançado. E se o valor mínimo para a impressão dos livros não for alcançado? Bom, neste caso os doadores receberão o dindin de volta diretamente depositado na sua conta.

Para quem se interessou, fica aqui o link do Catarse onde eh possível fazer a “doação”: https://www.catarse.me/pt/kiviagem

E para quem ficou com agua na boca e quer ler o blog, este eh o link: http://www.kiviagem.net/

E para quem curte o facebook, tem também: https://www.facebook.com/Kiviagem?fref=nf

E tem tambem um dos textos lindos da Kivia para vcs. Acho que o meu favorito! 🙂

“Tinha dez anos quando fui a Ouro Preto pela primeira vez. Acordei assustada, sensação péssima. Disse ao meu tio que havia tido um pesadelo:

-A madrinha morreu.
-Morreu não, Kívia. Ela deve estar melhor do que a gente.

Semana passada, 18 anos e meio, 222 meses depois, voltei a Ouro Preto. O telefone me acordou. Atendi assustada. Do outro lado, a voz da minha mãe:

-A madrinha morreu

A madrinha é na verdade minha vó. Na verdade, os dois. As duas. Tantas. E só agora que elas se foram é possível contar quantas mulheres foi Dona Helena, quantas toneladas de importância sustentavam aquele pilar de porcelana e passos arrastados, calçando eternamente o chinelo branco-anil da humildade, fosse dia de casamento, fosse dia de ‘dibuiá mí pras galinha e tratar dos leitão’.

Desde que me entendo por ser humano (bem antes disso, na verdade) um anacrônico vestido de chita e botões grandes me esperava atrás da porteira de lenha cinza; fosse nos tempos em que os tombos no balanço do pé de manga e os banhos no tacho de cobre separavam, religiosamente, os finais de semana dos dias de ir pra escola, fosse nestes tempos em que os compromissos pseudo-anadiáveis e os medos fantasiosos da vida adulta resumiam minhas visitas a um ou dois pares por ano.

O fato é que a carapinha crespa cada vez mais algodoada, sempre doce, sempre atravessava o curral (barrento do verão ou o poeirento do inverno), desviava das bostas de duas ou três vacas escuras, destravava a tramela (quando não éramos mais rápidos) e abria, com um sorrisinho limpo, a porteira; o portal da roça. A roça … a escola, o parquinho, o restaurante. O ponto de encontro da família, dos 10 filhos, dos sei lá quantos netos, bisnetos, genros, noras, agregados, namoros e amizades que deram certo e que não deram muito certo. A roça. Nossa conselheira, nosso código de ética, nossa proteção e porto seguro. Roça mundo. O mundo inteiro sobre quatro pés rachados, equilibrando seu peso sobre duas pilastras de bambu, palha, taquara e balaio. Tão bravos e constantes em suas posições, que a gente até esqueceu do material (do qual foram feitos), que são matéria; que não há matéria que não acompanhe o amarelar da Folhinha de Mariana.

É, eu sei; a queda de um pilar é tão natural, certo e cíclico quanto o outono. Todos acham normal, mas a gente que é da roça acha estranho. Só a gente que é da roça para entender o que acontece quando cai um pilar. A roça acaba. Não tem mais queijo, não tem mais saco de mexerica no porta-malas, não tem ‘caldin de frango caipira cum quiabo’, não tem almoço de domingo, não tem caduquices, nem risadas das caduquices, não tem benção, nem benzeção contra quebrando e espinhela caída, não tem … (ai, como é difícil!) … e a fogueira de São João, como fica?

Só a gente que veio da roça, dessas roças que resistem ao latifúndio e à cidade, sobre decrescentes pilares de pau-a-pique, para entender a falta que o norte faz. Só a gente que veio da roça, que cresceu em volta de fogão de lenha, administrando e fazendo a própria panela de ferro, o próprio ‘cumê’, para misturar trabalho com liberdade. Só a gente que veio da roça, essa gente simples e teimosa das Minas Gerais, das gerais do mundo, para colocar a família, o outro, o amor acima de todas as coisas; para sentir a dor e pressentir a gravidade do derradeiro ponto final.”

Escolha voce tambem o seu sonho!

A arte de ser feliz, Cecília Meireles 

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz. 

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

in “Escolha seu sonho”  de Cecília Meireles
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