Cora Coralina – Não sei

Não sei

Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

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Que mundo eh esse?

E então voce passa os últimos 6 meses se planejando e criando coragem para falar com seus socios que voces precisam demitir um, ou melhor, o unico funcionario da empresa onde voce trabalha. Afinal ele eh amigo pessoal dos seus socios e tem familia com dois filhos pequenos. Isto, depois de ter passado quase um ano usando todos os recursos financeiros possíveis e impossíveis para evitar isto. Estes recursos incluem redução do salario dos socios da empresa, inclusive o seu. Durante varios meses o funcionario eh o dono do maior salario da sociedade… Mas ele tem dois filhos pequenos e familia, o que nos faz pensar que no fundo estamos sendo generosos e socialmente corretos.

Pois bem, voce respira fundo, cria coragem e marca uma reuniao para convencer os seus socios de que nao tem outra saida. Eles se espantam com a noticia e se deprimem (sao franceses…  e os franceses sempre se deprimem quando algo nao vai bem no trabalho). Eles questionam e tentam te convencer sobres planos mirabolantes para evitar a demissao. Afinal trata-se de um amigo com familia e dois filhos pequenos. Por mais que outras alternativas sejam re-re-repensadas, nao ha outra solucao possivel. Os numeros nao mentem. Finalmente os socios aceitam a decisao e se deprimem mais ainda. Voce se sente mal por ser portadora da ma noticia e por deprimi-los.

Damos a noticia  ao funcionario que tambem se deprime. Ele pede para ser liberado logo depois da noticia e entao vai para casa deixando a sala em silencio e com um clima pesado. Sentimos muito mas nao havia outra maneira.

Nos dias seguintes o funcionario eh ainda triste e pensativo. Conversa pouco e ja nao ri das piadinhas sem graca que rolam durante o horario de trabalho. Na semana seguinte comeca a cumprir o aviso previo, que aqui na Suica eh de 3 longos meses… Na outra semana apos almocarmos juntos ele diz que vai a uma loja de eletronicos. Entramos juntos ja que era caminho do escritorio. E ele entao compra um I-Phone da ultima geracao e paga uma nota preta (quase 800CHF para ser mais exata)…

Ele sai da loja todo feliz e sorridente te explicando todas as funcoes desta nova geracao de I-Phone e de que eh muito melhor que o outro que ele havia comprado no ano passado… Voce olha para o seu celular comprado a 5 anos atras e para os celulares dos seus socios que sao da geracao do seculo passado, daqueles que nem internet tem… e entao se pergunta:

” – Que mundo eh esse?”

E mesmo que voce nao tenha a resposta para a pergunta acima, voce se sente feliz por nao fazer parte disto…

O que eh ser livre?

Ela entrou no ônibus uma estação antes de descermos. Pedi ao Pimpolho que se levantasse da cadeira onde estava sentado para dar lugar para que ela entrasse com o seu andador. Era uma senhorinha que mal se aguentava em pé mas que pelo jeito andava para cima e para baixo, lentamente, com o seu amigo andador. Por aqui eles são muito usados. Eu diria que não pelo fato da cidade ter uma população considerável de idosos, mas também porque as ruas, os parques, prédios, muitos restaurantes e também os transportes públicos terem sido planejados pensando nisto: nem todo mundo pode se locomover com suas próprias pernas e sem maiores dificuldade. Eh assim que os cadeirantes também se locomovem pela cidade: sem muita dificuldade, entrando e saindo dos transportes públicos por muitas vezes sozinhos e contanto com a ajuda do motorista que calmamente deixa o seu posto ao volante, anda ate a porta de passageiro, abre uma rampa de acesso e ajuda o cadeirante a entrar. La dentro já tem o lugar reservado para os cadeirantes com cinto de segurança e tudo. Este mesmo lugar também serve para os andadores dos idosos, para as bicicletas ou para os carrinhos dos bebes. Não há briga pelo espaço. Normalmente, mesmo que o transporte publico esteja lotado, há espaço para todo mundo. E no pior dos casos pode-se esperar pelo próximo ônibus ou tram que normalmente vem após 7 minutos.

Pois bem, foi assim que a senhorinha de hoje entrou lentamente mas sem maiores dificuldades no ônibus onde estávamos. Eu e Pimpolho abrimos espaço para que ela passasse e então ela “estacionou” o seu andador ao nosso lado e assentou-se sobre ele. Ah! Para quem não sabe o andador eh também um banquinho pois assim, quando cansados, os idosos podem facilmente se assentar para recuperar o fôlego. Logo depois que o ônibus arrancou, eu e Pimpolho nos preparamos para descer. Eu meio atrapalhada, segurava a mãozinha dele enquanto puxava o carrinho e segurava uma sacola com a outra mão. Foi então que ao tentar descer do ônibus vi que a mesma senhorinha também queria descer e não tinha visto o carrinho do Pimpolho. Meio que trombamos na porta do ônibus, olhamos uma para a cara da outro, sorrimos e pedimos desculpas uma a outra ao mesmo tempo. Depois, nos desejamos um bom dia e então fiquei observando os seus passos lentos e incertos se distanciarem de mim e do Pimpolho, que parou para ver um carrinho numa vitrine.  Foi por isso que tive tempo de observar a cena toda. A senhorinha e seu andador atravessaram muito lentamente 2 ruas, passaram em frente ao supermercado e entraram no banco. Alguns minutos depois, a senhorinha saiu do banco, atravessou mais uma rua e entrou no supermercado. Assisti a tudo como se fosse em câmera lenta e durante todo o tempo eu pensava em como esta senhorinha eh livre para desfrutar a sua vida sem correr risco de ser assaltada, atropelada, desrespeitada ou esfaqueada (dizem que eh a “nova” moda em algum pais por ai…). Fiquei me lembrando de um tempo atrás quando minha mãe, que nem eh velhinha e se locomove muito bem, pegou um ônibus, foi ate ao banco buscar a sua aposentadoria e quando esperava o ônibus para voltar para casa viu que sua bolsa havia sido rasgada e todo dinheiro do mês roubado sem que ela percebesse. E que quando contava isso as pessoas, inclusive nos os filhos, a reação era sempre a mesma:

” Mas você eh maluca de ir buscar dinheiro no banco sozinha e ainda de ônibus? Você teve muita sorte deles não terem te machucado. Nunca mais faca isso. Que perigo!”

Eh assim… a minha mãe foi muito irresponsável e muito maluca por pensar que era livre morando aonde mora… 😦

Sobre ser estrangeiro, extranjero, foreign, straniera, fremd… e o que mais vier!

Quando você encontra uma musica que descreve parte da sua vida e do que você sente… so da para agradecer! 🙂

Extranjero

Maria Gadú

Ahora yo soy para ti
Solamente un extranjero
Tengo la vida en dos mitades
Pero amor lo tengo entero

No traigo una verdad
Nada bajo de mi bandera

Mis canciones en las lineas
Finitas de la frontera

Llamándote me voy
Buscando los espacios

Tu imagen clavada en mi vida
El tren después de la partida
Mis sueños, mirajes, quimera

Mirando tu fotografia
Pisando los piés

Ahora soy um forastero
Mirándote mirar
Otrora fui de este suelo
Deseando solo escapar

Ahora soy um forastero
Mirándote girar
Deseando ahora no ser
Extranjero

Llamándote me voy

Buscando los espacios

Tu imagen clavada en mi vida
El tren después de la partida
Mis sueños, mirajes, quimera

Mirando tu fotografia
Pisando los piés

Ahora soy um forastero
Mirándote mirar
Otrora fui de este suelo
Deseando solo escapar

Ahora soy um forastero
Mirándote girar
Deseando ahora no ser
Extranjero

Buenos aires, Asunción,
Caracas, Lima, Madrid,
Quito, Montevideo, Brasília,
Lejos de aquí

Salvador, Belo Horizonte
Barcelona, Roma, Pari,
Lisboa, Porto Alegre,
Curitiba cerca de ti

Ahora soy um forastero
Mirándote mirar
Otrora fui de este suelo
Deseando solo escapar

Ahora soy um forastero
Mirándote girar
Deseando ahora no ser
Extranjero

Ajudando a ser ajudado

Ja nem me lembro mais como foi que cheguei ate o blog da Kivia, o Kiviagem. So sei que desde de o primeiro momento fiquei fascinada pelas historias, pela iniciativa, pela leveza, pela liberdade, pela beleza e, não vou mentir, pelo fato dela ser mineira como eu e falar com o mesmo sotaque!

Para quem ainda não conhece, a Kivia eh uma mineira que largou o emprego e saiu por ai se aventurando pelo mundão afora. E com as aventuras dela nos, seguidores do blog, aprendemos um bocado sobre historia, sobre liberdade e principalmente sobre simplicidade. Não, eu não conheço a Kivia pessoalmente. Ainda nao… Somente nos falamos algumas vezes através de mensagens pois quis agradece-la por nos dar o prazer da leitura do seu blog, da sua pagina do facebook, dos seus textos inteligentes, emocionantes e maravilhosos. E eh por isso mesmo que não vejo a hora de ler o livro que a Kivia, de maneira independente, escreveu! E espero que mais e mais pessoas também tenham esta sorte!

Como o livro foi escrito de maneira independente, ele precisa de “doações” para ser impresso. Digo “doações” porque na verdade o que acontece eh uma “pré-compra” uma vez que os doadores receberão o livro impresso em casa. Isto se o valor mínimo para as impressões for alcançado. E se o valor mínimo para a impressão dos livros não for alcançado? Bom, neste caso os doadores receberão o dindin de volta diretamente depositado na sua conta.

Para quem se interessou, fica aqui o link do Catarse onde eh possível fazer a “doação”: https://www.catarse.me/pt/kiviagem

E para quem ficou com agua na boca e quer ler o blog, este eh o link: http://www.kiviagem.net/

E para quem curte o facebook, tem também: https://www.facebook.com/Kiviagem?fref=nf

E tem tambem um dos textos lindos da Kivia para vcs. Acho que o meu favorito! 🙂

“Tinha dez anos quando fui a Ouro Preto pela primeira vez. Acordei assustada, sensação péssima. Disse ao meu tio que havia tido um pesadelo:

-A madrinha morreu.
-Morreu não, Kívia. Ela deve estar melhor do que a gente.

Semana passada, 18 anos e meio, 222 meses depois, voltei a Ouro Preto. O telefone me acordou. Atendi assustada. Do outro lado, a voz da minha mãe:

-A madrinha morreu

A madrinha é na verdade minha vó. Na verdade, os dois. As duas. Tantas. E só agora que elas se foram é possível contar quantas mulheres foi Dona Helena, quantas toneladas de importância sustentavam aquele pilar de porcelana e passos arrastados, calçando eternamente o chinelo branco-anil da humildade, fosse dia de casamento, fosse dia de ‘dibuiá mí pras galinha e tratar dos leitão’.

Desde que me entendo por ser humano (bem antes disso, na verdade) um anacrônico vestido de chita e botões grandes me esperava atrás da porteira de lenha cinza; fosse nos tempos em que os tombos no balanço do pé de manga e os banhos no tacho de cobre separavam, religiosamente, os finais de semana dos dias de ir pra escola, fosse nestes tempos em que os compromissos pseudo-anadiáveis e os medos fantasiosos da vida adulta resumiam minhas visitas a um ou dois pares por ano.

O fato é que a carapinha crespa cada vez mais algodoada, sempre doce, sempre atravessava o curral (barrento do verão ou o poeirento do inverno), desviava das bostas de duas ou três vacas escuras, destravava a tramela (quando não éramos mais rápidos) e abria, com um sorrisinho limpo, a porteira; o portal da roça. A roça … a escola, o parquinho, o restaurante. O ponto de encontro da família, dos 10 filhos, dos sei lá quantos netos, bisnetos, genros, noras, agregados, namoros e amizades que deram certo e que não deram muito certo. A roça. Nossa conselheira, nosso código de ética, nossa proteção e porto seguro. Roça mundo. O mundo inteiro sobre quatro pés rachados, equilibrando seu peso sobre duas pilastras de bambu, palha, taquara e balaio. Tão bravos e constantes em suas posições, que a gente até esqueceu do material (do qual foram feitos), que são matéria; que não há matéria que não acompanhe o amarelar da Folhinha de Mariana.

É, eu sei; a queda de um pilar é tão natural, certo e cíclico quanto o outono. Todos acham normal, mas a gente que é da roça acha estranho. Só a gente que é da roça para entender o que acontece quando cai um pilar. A roça acaba. Não tem mais queijo, não tem mais saco de mexerica no porta-malas, não tem ‘caldin de frango caipira cum quiabo’, não tem almoço de domingo, não tem caduquices, nem risadas das caduquices, não tem benção, nem benzeção contra quebrando e espinhela caída, não tem … (ai, como é difícil!) … e a fogueira de São João, como fica?

Só a gente que veio da roça, dessas roças que resistem ao latifúndio e à cidade, sobre decrescentes pilares de pau-a-pique, para entender a falta que o norte faz. Só a gente que veio da roça, que cresceu em volta de fogão de lenha, administrando e fazendo a própria panela de ferro, o próprio ‘cumê’, para misturar trabalho com liberdade. Só a gente que veio da roça, essa gente simples e teimosa das Minas Gerais, das gerais do mundo, para colocar a família, o outro, o amor acima de todas as coisas; para sentir a dor e pressentir a gravidade do derradeiro ponto final.”

Pensamento do dia

Para mim o mágico da poesia eh conseguir colocar em palavras exatamente e precisamente aquilo que não sabíamos verbalizar. Ah… e como o Mia Couto me conhece! 😉

“Diante de mim
o universo se dissolveu
e um respirar de céu
em meu peito se inundou.

Mia Couto

No livro “Vagas e lumes”
Excerto do poema “Inundar de infância”

Sobre a liberdade (que ninguem tem)

E se por um segundo tudo desaparecesse e toda a paz do universo pudesse ser sentida. Era so este o desejo daquela tarde, daquele dia, daquele mes, de todos aqueles anos e vidas: Que tudo se fosse sem deixar o minimo rastro. Que entao o mais infimo detalhe da mais pequena sensacao, da mais pequena acao e tambem do menor e do maior dos sentimentos pudessem todos, simplesmente desaparecer. E que nem a mais leve das leves vibracoes fosse mais sentida. E entao assim a verdadeira liberdade seria possivel. Seria…

Mas nao eh.