Nao fora o Mar

Eh que a cidade de Porto em Portugal, alem de muitas outras belezas, me fez descobrir este Poema. _/\_

20180113_114226

Não Fora o Mar!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

Fernanda de Castro, in “Trinta e Nove Poemas”

Anúncios

Pensamento do dia

Pois bem, minha gente…
O dia estava todo programado, organizado,  cronometrado. Tudo meticulosamente pensado por uma virginiana que, de tempos em tempos, tem a pretensão de prever o futuro e deixar tudo organizado a espera do mesmo. Como se as surpresas e imprevisibilidade não fossem parte constante dessa vida e desse mundo que gira cada vez mais rápido.
Digamos que esta virginiana pudesse ser considerada bem sucedida nos seus “poderes” quase paranormais de prever o futuro e se preparar para ele. Sim, minha gente. Isso funcionava bem até  um tempo atrás.
Até um tempo atrás as férias podiam ser planejadas sem grandes possibilidades de cancelamento, de serem modificadas, transferidas. Os dias eram planejados entre atividades como: acordar, trabalhar, estudar, ver amigos, me alimentar calmamente, praticar yoga e principalmente… dormir 8 horas ininterruptamente!  Dava para planejar minhas noites de sono, minha gente! Os finais de semana eram dias de liberdade e também podiam ser facilmente planejados. Ahh, bons tempos…
Pois hoje estou eu aqui, cancelando, alterando, transferindo os planos do meu dia que estava meticulosamente planejado para… “quando der”. Essa nao foi a primeira vez e, com certeza, nao sera a ultima. Depois de uma curta noite de 5horas de sono com interrupções constantes por gemidinhos de alguém que estava com febre. Esse mesmo alguém, conhecido por vocês como Pimpolho, teve frebre alta as 7 da manhã… o que me obrigou a não levá -lo para a creche. Pois agora, depois de medicado a algumas horas atras, ele já está ótimo! Pulando pela sala, me convidando para brincar de homem aranha e de tubarão,  calçando meus sapatos e gargalhando com isso, me chamando a casa 5 minutos só para conferir se estou prestando atenção a ele. Pode ser até  a febre volte,  mas eu não  apostaria nisso…
Sim, assim como o motivo de tantas mês,  esse é o meu também.  Motivo transformador que nos faz ter o super poder de estar sempre disposta a encarar a obrigacao de se reprogramar. Mais que um motivo, minha gente, um aprendizado. Uma transformação interior. Um exercicio de paciencia e de definicao de prioridades, e ate de humildade.
Para ser mãe é preciso se transformar, se adaptar, se reprogramar. Constantemente. . .

image

Doce

“Acabou-se o que era Doce.”

Meu avo, mineiro, usava este proverbio. Minha mae ainda o usa. Sempre o escutei. Desde de crianca pequenininha la em Minas, aquele lugar onde ainda eh a minha casa… O que eu nunca pensei, eh que o Doce pudesse mesmo acabar. Acabar assim… de verdade verdadeira, subitamente, em um mar de lama.

Ahhh, Drummond… so voce consegue ser asssim… tao representante do povo mineiro. Obrigada, Drummond!

 

“Lira Itabirana”, Carlos Drummond de Andrade, 1984

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?